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  1. #1 O Hospital São Dimas cheirava a desinfetante e silêncio de madrugada. Dr. Mateus esfregava os olhos no posto de enfermagem. Era plantão duplo. "Mais um café, doutor?" Lívia, a enfermeira-chefe, estendeu a caneca. Tinha olheiras fundas, mas o jaleco sempre impecável. "Se eu tomar mais um, enfarto antes da ronda", ele riu fraco. "Como está a trezentos e quatro?" A trezentos e quatro. Dona Clara. Idosa, pneumonia. Deu entrada ontem. Coisa simples. Mas desde que chegou, as outras pacientes pediam transferência de ala. Lívia hesitou. "Sedada. Mas... ela amarrou de novo." Mateus suspirou. Foi até o quarto. Dona Clara estava sentada na cama, imóvel. Magra, cabelo branco ralo. No pulso direito, uma fita vermelha de cetim, amarrada com um laço perfeito. Ninguém sabia de onde vinha. Cortavam, sumia do lixo, reaparecia no pulso dela. Mateus checou o prontuário. Sinais estáveis. "Dona Clara, a senhora precisa tirar isso. Atrapalha o acesso." Ele pegou a tesoura. A velha agarrou o pulso dele. A força não era de uma idosa com pneumonia. A pele era gelo. "Não corta", a voz dela era lixa. "Se cortar, ela vem me buscar." "Quem, dona Clara?" "Ela. A que eu deixei." Lívia apareceu na porta. "Doutor, o monitor da trezentos e seis apitou. Vou lá." Mateus assentiu. Quando olhou de volta, Dona Clara dormia. A fita, intacta. De madrugada. O corredor estalou. As luzes fluorescentes piscaram. Lívia voltou pálida. "A trezentos e seis... a paciente sumiu. A cama está vazia. Só tem isso no lençol." Ela mostrou a mão trêmula. Uma fita vermelha de cetim. Igualzinha. O interfone chiou. A voz de Dona Clara, mas não vinha do quarto. Vinha de todos os alto-falantes. "Um nó pra cada vida que eu devo." Mateus e Lívia correram pro trezentos e quatro. A cama estava vazia. A janela fechada. No chão, uma tesoura cirúrgica e alguns fios de cabelo branco. E na cabeceira, amarrada, outra fita vermelha. Fresca. Úmida. Lívia cobriu a boca. "Meu Deus. Tem sangue." Mateus puxou a fita. Gotas grossas pingaram no chão. Ele olhou pro próprio pulso. Um laço vermelho, perfeito, estava amarrado nele. Ele não sentiu quando. Não lembrava. O monitor cardíaco do quarto disparou. Não era de Dona Clara. Era o dele. Batimento acelerado. "Doutor!" Lívia tentou cortar a fita do pulso dele com a tesoura. A porta do quarto bateu. A temperatura caiu. No vidro da janela, refletida, não estavam só os dois. Atrás de Lívia, uma mulher de camisola hospitalar, pele cinza, cabelo preto escorrido. No pulso dela, dezenas de fitas vermelhas, apodrecidas. Ela sorriu. Não tinha dentes. Só um buraco escuro. E apontou pro laço no pulso de Mateus. A voz de Dona Clara veio de dentro do banheiro trancado do trezentos e quatro: "Eu avisei. Quando corta o meu, ela amarra o seu. Agora você deve um nó." A última coisa que Lívia viu antes da luz acabar foi a tesoura caindo da própria mão. E no chão, ao lado do pé de Mateus, uma nova fita vermelha começando a se materializar, sozinha, dando o primeiro laço. De manhã, o quarto trezentos e quatro estava vazio. Limpo. Só dois prontuários na mesa. Paciente: Clara Nunes. Status: Óbito, anos setenta. Causa: Parto. Paciente: Mateus Freitas. Admissão: de madrugada. Status: Desaparecido. Lívia pediu demissão. No dia que foi embora, achou no bolso do jaleco. Uma fita vermelha. Com um nó.
  2. #2 Lívia não dormia. Fazia uma semana que tinha pedido demissão. A fita vermelha estava guardada numa caixa de sapato, no fundo do armário. Não ousava tocar. Mas sentia. Coçava o pulso mesmo sem nada ali. De madrugada, ouvia interfones chiando no apartamento vazio. "Um nó pra cada vida que eu devo." Ela foi atrás. Arquivo morto do São Dimas. Paciente: Clara Nunes. Óbito, anos setenta. Causa: parto. Só isso. Mas a ficha obstétrica estava rasgada. Faltavam páginas. A única pista era um nome rabiscado no verso: _Irmã Augusta – Convento da Luz_. O convento cheirava a mofo e incenso. Irmã Augusta tinha quase cem anos, cega, mas lúcida. "Clara... Clara Nunes", a velha balançou a cabeça quando Lívia falou. "A menina que amarrou o diabo." Irmã Augusta contou. Anos setenta. Clara era parteira no hospital antigo. Uma noite, uma gestante chegou passando mal. Sangramento. O bebê nasceu morto. A mãe também não resistiu. Diziam que Clara se recusou a chamar o médico. Quis fazer o parto sozinha, por orgulho. Duas mortes. "Na noite seguinte, Clara apareceu com uma fita vermelha no pulso", sussurrou a freira. "Disse que a mãe morta voltou. Amarrou a fita nela e disse: 'Um nó pra cada vida que você me deve. Só se liberta quem paga com outra vida no lugar'." "E o que Clara fez?" Lívia perguntou, com a mão tremendo. "Cortou a fita." A freira segurou a mão de Lívia. A sua estava gelada. "Na manhã seguinte, acharam o corpo de Clara no quarto trezentos e quatro. Pulso limpo. Mas o médico que atendeu o óbito... desapareceu três dias depois. Só deixaram uma fita na mesa dele." Lívia tirou a caixa da bolsa. "E se eu não cortar?" "Então ela vem cobrar o nó quando menos esperar", Irmã Augusta tateou o rosto de Lívia. "Mas existe um jeito. A dívida não é de sangue. É de culpa. Clara nunca aceitou que errou. Por isso a fita passa. Você tem que devolver o nó pra quem ele pertence." Naquela noite, Lívia voltou ao São Dimas. Invadiu o arquivo. Vasculhou até achar. Ficha de óbito da gestante de anos setenta. Nome: Helena Ribeiro. Causa: hemorragia. Bebê: natimorto, sexo feminino. Não tinha nome. Lívia foi pro cemitério municipal. Cova rasa, sem lápide. Só uma cruz de madeira podre. Ajoelhou. Tirou a fita da caixa. "Não fui eu", ela chorou. "Eu não devo esse nó. Mas eu sinto muito por você. Por vocês duas." Cavou com as mãos. Enterrou a fita vermelha junto da cruz. "Devolve pra dona Clara. A culpa é dela." O vento parou. O silêncio era total. Por um segundo, Lívia jurava ter ouvido um choro de bebê, longe, e depois nada. Quando levantou, o pulso coçava. Olhou. A pele estava marcada, vermelha, no formato de um laço. Mas sem a fita. Só a cicatriz. Nunca mais viu a fita. Nunca mais o interfone chiou. Um ano depois, Lívia trabalhava numa clínica de bairro. Atendeu uma grávida em trabalho de parto complicado. A sala ficou em silêncio. O monitor apitou reto. Lívia não pensou. Gritou por ajuda, chamou o médico, fez o que tinha que fazer. A mãe sobreviveu. O bebê, uma menina, chorou forte. Quando entregou a criança pra mãe, a mulher segurou o pulso de Lívia. "Obrigada", disse. "Pela minha vida. E pela dela." Lívia olhou pra baixo. A cicatriz em forma de laço no pulso dela tinha sumido. No lugar, só pele lisa. Na saída do quarto, a enfermeira nova comentou: "Lívia, cê deixou cair isso." Era uma fita. Branca. De cetim. Sem nó. Lívia sorriu. Guardou no bolso. Alguns nós não prendem. Alguns libertam. *FIM* Qu branca pode ter sua própria história...
Art Style: Mini Cute
Color Mode: Full Color
Panels: 2
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