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Prompt: “O Trilho para o Nada
O relógio era o inimigo de Liam. A pressão pela bolsa de estudos pulsava em suas têmporas enquanto ele corria pela plataforma. Quando o som pesado de metal contra metal ecoou e a fumaça densa subiu, ele não questionou a estética anacrônica daquela Maria Fumaça. O trem estava ali; era sua única saída. Ele saltou para dentro do vagão no último segundo, mas o alívio foi substituído por um calafrio imediato.
O interior do trem cheirava a ozônio e mofo. Ao olhar ao redor, Liam sentiu o primeiro estalo de irrealidade: os passageiros eram colagens de séculos distintos. Um homem de chapéu dos anos 70 lia um jornal amarelado ao lado de um jesuíta que desfilava as contas de um rosário em silêncio absoluto.
Liam caminhou até a cabine do maquinista, buscando lógica.
— Essa viagem vai demorar? — perguntou, a voz falhando.
O maquinista não se virou. Apenas soltou um riso seco, um som de engrenagens enferrujadas, e avisou:
— Estamos prestes a dar o "pulo". Não olhe para o vidro, rapaz. O Abismo do Esquecimento não perdoa curiosos. Se olhar, ele te puxa.
O trem estremeceu. As luzes oscilaram até morrerem, mergulhando o vagão em um breu antinatural. Foi quando o horror começou. Ao lado de Liam, um homem entrou em surto; o desespero de não saber onde estava o fez esmurrar o vidro com uma força sobre-humana. O vidro estilhaçou, mas não havia vento lá fora, apenas um vácuo faminto. O homem foi tragado, deixando apenas o rastro de sangue e o cheiro de ferro no ar. Logo depois, outro passageiro se levantou. Diferente do primeiro, ele caminhou com uma paz fúnebre, abrindo a porta lateral e entregando-se ao vazio como quem volta para casa.
Paralisado, Liam sentiu uma mão em seu ombro. Era uma moça, sentada nas sombras, com olhos que pareciam ter visto eras inteiras passarem.
— Por que eles fizeram isso? — Liam sussurrou, trêmulo.
— Relaxa — ela respondeu com uma frieza cortante. — Daqui a pouco você esquece. Eles caíram no esquecimento, e logo cairão no seu também.
O trem deu um solavanco final e as janelas foram inundadas por uma luz impossível. O cheiro de ozônio deu lugar ao aroma de especiarias e poeira antiga. Liam desembarcou na Cidade Atemporal.
O cenário era um delírio: o Grande Mercado se estendia sob um céu de cores mutáveis. Ele viu, paralisado, um gigante atravessar a praça guiando um dinossauro emplumado por uma coleira de ferro. Mais adiante, Sócrates gesticulava fervorosamente, discutindo filosofia com um jovem envolto em uma armadura robótica que brilhava sob o sol artificial.
Em meio ao caos, um rosto conhecido. Uma jovem usava uma camiseta com o número "2020". Liam correu, o coração falhando uma batida ao reconhecê-la: era Alice, sua paixão secreta da faculdade.
— Alice? O que... como você veio parar aqui? — ele perguntou, ofegante. — Eu peguei um trem e tudo ficou louco. Preciso ir embora, preciso voltar para 2020!
Alice o olhou com uma calma irritante, quase terna.
— Para que tanta pressa, Liam? — ela perguntou, apontando para o horizonte onde as eras se fundiam. — Olha ao seu redor. Você não está curioso para conhecer nada disso? Aonde no mundo você vai conseguir presenciar Sócrates e máquinas do futuro no mesmo jardim?
Liam respirou fundo, o pânico cedendo espaço para algo novo. Ele olhou para Alice e percebeu que, talvez, o caminho de volta pudesse esperar. Se ela estava ali, e se aquele lugar continha todas as possibilidades do tempo, ele finalmente tinha a chance de não apenas fugir, mas de caminhar ao lado dela por onde o tempo não ousa tocar.
”
Art Style: Dark Fantasy
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