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- #1“O estalo seco das fichas de argila era a trilha sonora da vida de Vítor. No "Subsolo", um cassino que não existia nos mapas de Garanhuns, o tempo era uma ilusão mantida por luzes neon e a ausência de janelas. Não havia relógios nas paredes — o Doutor Inácio havia mandado removê-los anos atrás, porque jogadores que não sabem que horas são jogam por mais tempo. O ar era uma mistura densa de cigarro, álcool barato e o perfume caro de quem estava perdendo mais do que podia admitir. A luz neon vermelha lavava tudo com uma tonalidade que transformava rostos saudáveis em máscaras de cansaço. Vítor, com seu colete preto impecável e mãos que moviam o baralho com a precisão de um cirurgião, era apenas uma engrenagem na máquina de moer gente de seu patrão, o Doutor Inácio. Vítor odiava o Doutor Inácio. Odiava a forma como o homem — pardo, 1,75m, com uma barriga que chegava à mesa antes dele e um bigode espesso que parecia ter sido cultivado especificamente para intimidar — olhava para os jogadores como se fossem gado, e para os funcionários como se fossem mobília. Odiava como ele segurava o charuto entre o indicador e o médio, uma pose de quem nunca teve que sujar as mãos para ganhar um pote. Odiava, acima de tudo, a forma como esse ódio precisava ser engolido noite após noite, com a regularidade de quem toma um remédio amargo porque a alternativa é pior. Naquela noite, ao passar pela mesa, o Doutor Inácio deixou o olhar deslizar sobre Vítor com a brevidade de quem avalia e descarta — o homem pequeno, de pele parda e ombros curvados para dentro, que embaralhava cartas com uma precisão que nunca seria reconhecida como talento. Apenas como utilidade. — Mais uma rodada, Vítor. E tente não parecer tão morto por dentro — ironizou o Doutor Inácio, a fumaça do charuto ficando no ar como uma assinatura de desprezo. Vítor não respondeu. Embaralhou as cartas. Engoliu o que sentia com a prática de quem faz isso há anos — o sorriso no rosto custando mais caro que qualquer gorjeta que jamais recebera. Por dentro, havia uma palavra que ele repetia como mantra sempre que o Doutor passava: um dia. Não sabia o que viria depois dessa palavra. Sabia apenas que ela existia, e que enquanto existisse havia algo que ainda não havia morrido completamente. À sua esquerda, um homem de terno amassado empurrava fichas para o centro da mesa com a expressão de quem já sabe que perdeu mas ainda não conseguiu parar. À direita, uma mulher de vestido vermelho observava as cartas com olhos que calculavam e desistiam ao mesmo tempo. Vítor os via a todos — via os padrões, os tiques, os momentos exatos em que cada um decidia apostar além do que devia. Doze horas por noite, seis noites por semana, durante três anos. Ele conhecia a anatomia da derrota melhor do que qualquer pessoa naquela sala. Incluindo a sua própria. Naquela noite, após um turno de doze horas, saiu pelo beco dos fundos com os fones no ouvido — o único momento do dia em que o mundo era no volume que ele escolhia. O frio de Garanhuns chegou antes que ele virasse a esquina. Não o frio úmido do litoral, mas aquele frio seco e serrano que descia das encostas — o tipo que os pernambucanos do litoral custam a acreditar que existe no Nordeste, e que os garanhunenses carregam no corpo como uma segunda pele. Vítor caminhou com os ombros curvados para dentro, as mãos nos bolsos, a guitarra distorcida nos fones cortando o silêncio da madrugada. Três anos de Subsolo. Três anos engolindo a fumaça do charuto do Doutor Inácio. Três anos de sorriso que custava caro demais. Ele não sabia o que queria. Sabia apenas que queria outra coisa. Qualquer outra coisa. Essa era a forma mais honesta que encontrava para descrever o estado em que vivia — não ambição, não plano, não direção. Apenas a certeza sólida e inegociável de que aquilo não era suficiente e nunca seria. Ele parou diante de uma pequena vitrine de penhores que nunca notara antes. A loja ficava espremida entre dois estabelecimentos fechados, como se houvess”
Art Style: Mini Cute
Color Mode: Full Color
Panels: 1
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