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Olhe… eu não sei nem por onde começo, porque se eu falar direto o que vi naquele fim de tarde, vocês vão pensar que é conversa de pescador. Mas, como diz Dona Creuza, a do armazém, "quem tem boca fala o que quer, mas quem viu é quem sabe.
E eu vi. Com estes dois zoio que a terra há de comer… mas só quando for minha hora, né?
O caso foi assim: eram umas cinco e meia da tarde, a brisa da praia de Jaraguá soprando mansa, aquele cheiro de mar misturado com fumaça de pastel da barraquinha do seu Zé Pequeno. Até aí, nada demais. Maceió sendo Maceió. O povo na orla tomando água de coco, meninos correndo atrás de pipa, turista tirando foto da Ponta Verde como se fosse cartão-postal… que é mesmo.
Mas aí… o céu começou a mudar.
Primeiro, achei que era pôr do sol bonito. Sabe quando fica aquele laranja que mais parece ouro derretido? Pois é. Mas, do nada, o laranja sumiu e veio um roxo… não um roxinho suave de lavanda, não. Era um roxo forte, pesado, tipo suco de uva Tang mal misturado.
E foi aí que a fofoca começou.
— Vixe, tu tá vendo aquilo, menina? — gritou Jucélia, que vende tapioca na esquina.
— Ave Maria, será chuva? — respondeu a outra, já procurando guarda-chuva dentro da sacola.
— Chuva roxa, é? Isso aí é o fim dos tempos, minha filha! — retrucou seu Almir, com a mão no peito como se tivesse lembrado de um pecado antigo.
Eu… bem, eu fiquei olhando. E cá pra nós, o negócio não tava com cara de normalidade, não. O sol foi se escondendo atrás das nuvens, mas elas também estavam daquela cor estranha. E sabe quando o vento muda, fica mais frio do que devia? Pois foi assim.
Uns meninos de bicicleta passaram gritando que o "céu tava com doença" e sumiram pela ladeira. Na areia, os pescadores que tavam puxando rede pararam, olharam pro alto e começaram a fazer o sinal da cruz.
Não demorou muito, o primeiro áudio de WhatsApp chegou.
"Minha gente, minha prima trabalha na base aérea e disse que isso é um fenômeno atmosférico chamado inversão cósmica. É sério, amanhã vai cair uma chuva ácida, guardem comida e água!"
Ah, meus consagrados, aí pronto. Bastou isso pro mercado do bairro começar a lotar. No Extra da Mangabeiras, fila no caixa já dava volta no corredor do açúcar. Um povo pegando pacote de arroz como se fosse ouro, outro enchendo carrinho de vela, e teve uma senhora que jurou que precisava de dez quilos de sal porque "sal afasta coisa ruim".
E eu, como sou besta, fui atrás pra ver. Não comprei nada — ainda. Mas fiquei só observando aquele corre-corre, e no fundo pensando: Será que é o fim mesmo? Ou é só um pôr do sol que exagerou na maquiagem?
Do outro lado da cidade, no Benedito Bentes, minha vizinha Marlene me mandou mensagem:
"Vizinho, o roxo tá mais forte aqui. O cachorro de seu Nonato tá uivando faz meia hora. Tu sabe que cachorro vê coisa, né?"
Sei lá se cachorro vê coisa, mas o uivo de um bicho numa noite estranha dessas… não ajuda o coração.
Enquanto isso, o vento aumentava. Quem tava na Pajuçara começou a dizer que o mar tava recuando. Não muito, mas o suficiente pra deixar o pessoal com a pulga atrás da orelha. E olha, nordestino pode até rir na cara do perigo, mas a gente também sabe respeitar sinal.
Uns corriam pra casa. Outros, mais curiosos, iam pra beira do mar ver de perto.
Foi aí que vi a primeira coisa esquisita de verdade.
Bem no horizonte, lá onde o céu roxo encontrava o mar, tinha… como posso explicar… uma luz branca, piscando. Não era farol de barco, que eu conheço bem. Era mais… pulsante. Tipo quando a televisão perde sinal e fica piscando.
E adivinha o que aconteceu? Teve gente dizendo que era OVNI. Teve gente jurando que era "a estrela guia anunciando o arrebatamento". E teve uns que, como sempre, acharam que era só "reflexo da lua". O problema é que a lua nem tinha nascido ainda.
A partir dali, começou o que eu chamo de "a noite do vai ou racha". O povo começou a se reunir em grupos, uns pra rezar, outros pra beber e esquecer. Na esquina do Jaraguá, já tinha sanfona tocando e cerveja gelada. No pátio da igreja, tinha fila pro confessionário.
E eu, bom… eu tava no meio, observando tudo. Porque, veja bem, alguém tem que contar a história depois.
Ei, se achegue mais, leitor, por que agora tu é meu cúmplice.
e”
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