Creation Details
Panel prompts:
  1. #1 O Silêncio de uma Criança Dizem que o silêncio é a ausência de som, mas para Agatha, o silêncio sempre foi um idioma. Uma linguagem complexa feita de passos abafados no corredor, respirações pesadas atrás da porta e o som de trincos que se fecham violentamente. No subúrbio cinzento e esquecido onde sua vida começou, na periferia de uma metrópole brasileira que engolia os fracos, ela aprendeu a traduzir o perigo antes mesmo de aprender a ler. A casa onde morava não era um lar; era um território de caça. Agatha tinha apenas sete anos, mas seus olhos — duas órbitas escuras, analíticas e precocemente desprovidas de inocência — já carregavam o peso de quem entende que o mundo é dividido estritamente entre predadores e presas. Enquanto as outras crianças da vizinhança corriam descalças pela poeira, rindo e desperdiçando energia com a ingenuidade típica da idade, Agatha permanecia sentada nos degraus de concreto da entrada. Observando. Sempre observando. Ela não falava. Quase nunca. As poucas pessoas que tentavam interagir com ela recebiam em troca um olhar fixo, gélido, que desconfortava até os adultos mais durões. — Essa menina parece que lê a mente da gente — comentava uma vizinha, benzendo-se ao passar pela calçada. — Tem um olhar que gela a espinha. Cruz credo. Agatha ouvia e guardava a informação. Ela não se importava em ser vista como uma aberração ou um presságio ruim. Na verdade, percebeu muito cedo que causar desconforto nas pessoas era uma excelente linha de defesa. Se eles tinham medo ou receio do seu silêncio, mantinham-se a uma distância segura. E a distância era a única coisa que garantia sua integridade física. Pelo menos, durante o dia. O problema real começava quando o sol se punha, as luzes da rua falhavam e as sombras se alongavam pelas paredes descascadas da sala. Era nesse momento que a atmosfera da casa mudava, tornando-se sufocante. Os monstros da vida real não usavam máscaras de terror; eles tinham rostos familiares, cheiravam a álcool barato e podridão moral. Sentada no canto mais escuro do seu quarto diminuto, Agatha encolhia as pernas contra o peito. Ela não chorava. O choro era um sinalizador de fraqueza, um convite para que o sadismo dos seus agressores aumentasse. Em vez de derramar lágrimas, a mente da menina trabalhava em uma velocidade assustadora para a sua idade. Ela começou a catalogar os hábitos dos seus algozes: o peso do passo de cada um no assoalho de madeira, o hálito específico que indicava o nível de agressividade daquela noite, o padrão dos horários em que os abusos e as humilhações começavam. Ainda era uma criança indefesa em termos físicos, mas sua mente já operava como a de um general encurralado em território inimigo. Ela sabia que, para sobreviver ao inferno que estava apenas começando, precisaria se transformar em algo que nenhum daqueles monstros seria capaz de prever ou quebrar. Naquela noite fria, enquanto ouvia o som da fechadura da porta principal girar, indicando que o horror estava prestes a entrar, Agatha respirou fundo. Seus batimentos cardíacos, incrivelmente, desaceleraram. A calma extrema, que mais tarde seria sua maior marca registrada, dava os seus primeiros e sinistros passos. Ela olhou para a escuridão do quarto e prometeu a si mesma, em um voto silencioso, que absorveria cada gota de dor. Não para se curar, mas para estocar o combustível necessário para destruir, um dia, o mundo inteiro.
  2. #2 violentamente. No subúrbio cinzento e esquecido onde sua vida começou, na periferia de uma metrópole brasileira que engolia os fracos, ela aprendeu a traduzir o perigo antes mesmo de aprender a ler. A casa onde morava não era um lar; era um território de caça. Agatha tinha apenas sete anos, mas seus olhos — duas órbitas escuras, analíticas e precocemente desprovidas de inocência — já carregavam o peso de quem entende que o mundo é dividido estritamente entre predadores e presas. Enquanto as outras crianças da vizinhança corriam descalças pela poeira, rindo e desperdiçando energia com a ingenuidade típica da idade, Agatha permanecia sentada nos degraus de concreto da entrada. Observando. Sempre observando. Ela não falava. Quase nunca. As poucas pessoas que tentavam interagir com ela recebiam em troca um olhar fixo, gélido, que desconfortava até os adultos mais durões. — Essa menina parece que lê a mente da gente — comentava uma vizinha, benzendo-se ao passar pela calçada. — Tem um olhar que gela a espinha. Cruz credo. Agatha ouvia e guardava a informação. Ela não se importava em ser vista como uma aberração ou um presságio ruim. Na verdade, percebeu muito cedo que causar desconforto nas pessoas era uma excelente linha de defesa. Se eles tinham medo ou receio do seu silêncio, mantinham-se a uma distância segura. E a distância era a única coisa que garantia sua integridade física. Pelo menos, durante o dia. O problema real começava quando o sol se punha, as luzes da rua falhavam e as sombras se alongavam pelas paredes descascadas da sala. Era nesse momento que a atmosfera da casa mudava, tornando-se sufocante. Os monstros da vida real não usavam máscaras de terror; eles tinham rostos familiares, cheiravam a álcool barato e podridão moral. Sentada no canto mais escuro do seu quarto diminuto, Agatha encolhia as pernas contra o peito. Ela não chorava. O choro era um sinalizador de fraqueza, um convite para que o sadismo dos seus agressores aumentasse. Em vez de derramar lágrimas, a mente da menina trabalhava em uma velocidade assustadora para a sua idade. Ela começou a catalogar os hábitos dos seus algozes: o peso do passo de cada um no assoalho de madeira, o hálito específico que indicava o nível de agressividade daquela noite, o padrão dos horários em que os abusos e as humilhações começavam. Ainda era uma criança indefesa em termos físicos, mas sua mente já operava como a de um general encurralado em território inimigo. Ela sabia que, para sobreviver ao inferno que estava apenas começando, precisaria se transformar em algo que nenhum daqueles monstros seria capaz de prever ou quebrar. Naquela noite fria, enquanto ouvia o som da fechadura da porta principal girar, indicando que o horror estava prestes a entrar, Agatha respirou fundo. Seus batimentos cardíacos, incrivelmente, desaceleraram. A calma extrema, que mais tarde seria sua maior marca registrada, dava os seus primeiros e sinistros passos. Ela olhou para a escuridão do quarto e prometeu a si mesma, em um voto silencioso, que absorveria cada gota de dor. Não para se curar, mas para estocar o combustível necessário para destruir, um dia, o mundo inteiro.
Art Style: Urban Drama
Color Mode: Full Color
Panels: 2
Created: