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Prompt: “*Sangue e Pólvora*
Após deixarem o Deserto de Cinzas para trás, os irmãos Noah entraram em Blackridge ao cair da tarde. A cidade cheirava a couro velho, uísque barato e pólvora recente. Éll seguiu direto para o saloon mais barulhento da rua principal — precisava molhar a garganta depois de horas engolindo poeira. Eric, como sempre, foi atrás de trabalho. No quadro de missões pregado na parede do posto de xerife, uma nota rabiscada chamou sua atenção: caravana saqueada ao norte, itens valiosos perdidos. Recompensa alta. Detalhes com o banqueiro do banco Blackridge.
Faltavam informações cruciais, como sempre. Eric arrancou o papel e seguiu para o saloon.
No caminho, ouviu dois vaqueiros cochichando perto de um poste:
— …dois agentes chegaram hoje. Uniformes discretos, mas olhos de quem caça gente grande. Dizem que tão atrás de bandidos que andam atormentando as rotas.
Eric não parou. Entrou no saloon chutando as portas de vaivém. O lugar estava lotado, fumaça de charuto pairando no ar. Encontrou Éll encostada no balcão, copo na mão, já no segundo uísque.
Ele deslizou o papel pela madeira úmida até ela. Éll leu rápido, ergueu uma sobrancelha e guardou o papel no bolso do colete. Sem uma palavra, os dois saíram — ela largando moedas no balcão, ele já calculando saídas.
Chegaram ao banco no fim da rua. O banqueiro da cidade os recebeu na sala dos fundos, suando apesar do ambiente bem ventilado. Estava agitado: mãos tremendo ao ajustar os óculos, olhos desviando para a janela.
Éll sentou na cadeira de couro sem ser convidada, pernas cruzadas.
— A caravana. Fala tudo que não tá no papel.
O banqueiro engoliu em seco.
— É… uma carga importante. Ouro e jóias caras. Os bandidos pegaram tudo. Preciso que recuperem antes que sumam de vez.
Éll inclinou a cabeça, notando o tremor na voz dele.
— Você tá apavorado com essa caravana específica. Por quê?
O banqueiro hesitou. Ela sorriu, dentes à mostra.
— Tá bom. Vamos negociar direito. Três vezes o valor anunciado. Precisamos resolver isso três vezes mais rápido do que o normal.
— Três vezes?! — o banqueiro quase derrubou o copo d’água. — Isso é roubo!
Éll deu de ombros, fingindo desinteresse.
— Então esquece. Dobro e nada menos. Ou a gente vai embora e você explica pros seus patrões por que perdeu tudo.
O banqueiro piscou, o rosto vermelho. Estava acuado. Aceitou o dobro com um aceno rápido.
— Mas tem uma condição. Tem uma caixa ornamentada na carga. Tragam ela intacta. Sem um arranhão.
Eric, encostado na porta, trocou um olhar com a irmã. Eles assentiram e saíram.
Enquanto isso, os dois agentes que os vaqueiros mencionaram também rastreavam a mesma caravana. Não só pelos saques recentes — o líder dos bandidos tinha ligações antigas com A Central, e os agentes queriam informações. Qualquer pista.
O sol sangrava no horizonte do Deserto de Cinzas, tingindo as rochas de vermelho e dourado como se o próprio céu estivesse ferido. Duas silhuetas cavalgavam contra o crepúsculo: uma égua preta lustrosa chamada **Camélia** e um garanhão igualmente negro chamado **Corvo**. Nenhum dos dois usava rédeas, nem cabresto, nem chicote. Eles seguiam os irmãos por escolha própria — ou talvez por algum pacto antigo que nem Eric nem Éll Noah sabiam explicar.
Eric Noah, conhecido em cartazes de “procurado” como **Sangue**, cavalgava ligeiramente à frente. Chapéu inclinado sombreava seus olhos âmbar que pareciam brasas prestes a incendiar. A mão direita repousava casualmente no coldre do revólver, mas o gesto era calmo, quase preguiçoso. Ele nunca desperdiçava movimentos.
Ao lado dele, Éll Noah — **Pólvora** para quem tinha coragem de falar seu nome em voz alta — bufou alto o suficiente para ser ouvido a metros de distância.
— Porra, Eric, tu vai ficar nessa pose de estátua o caminho inteiro? Aquele filho da puta do banqueiro de Blackridge prometeu o dobro se a gente entregar a caravana antes do amanhecer. Dobro! E tu aí, parecendo que tá indo pro enterro da própria mãe.
Eric nem virou o rosto.
— A caravana tem doze homens armados, dois magos contratados e um elemental de ferro como escolta. Dobro só significa que o risco dobrou também. A gente espera o turno da meia-noite, quando o elemental descansa. Paciência, mana.
Éll revirou os olhos lilases tão forte que quase dava pra ouvir.
— Paciência é nome de puta fraca. Eu tô com fogo na mão desde a hora que acordei. Deixa eu explodir a porra da carroça de uma vez e a gente pega o ouro correndo.
— E morre correndo também — retrucou ele, voz baixa, mas firme. — Lembra do que aconteceu em Red Hollow? Você incendiou o saloon inteiro porque um cara te chamou de “pirralha ruiva”. A gente perdeu três semanas fugindo por causa disso.
— Ele mereceu. E eu não sou pirralha. Sou Pólvora. — Ela deu um tapa brincalhão (mas com força) no ombro dele. — Além do quê, você adorou a confusão. Admita.
Eric apenas deu um meio-sorriso torto. Era verdade. Ele odiava problemas… mas adorava resolver os problemas que ela criava.
*A história dos dois começou em cinzas e sangue*
Silas e Catherine Noah eram pequenos fazendeiros mágicos na divisa de Iron Valley. Silas manipulava terra e ferro. Catherine… ela carregava o núcleo das chamas, uma pedra vermelha como sangue seco que extraía a aura dela e transformava em fogo vivo. Viviam simples, felizes… até a noite em que o xerife Harlan Crowe e seus homens chegaram com mandados falsos e olhos famintos pelo ouro que os Noah “supostamente” escondiam.
Não havia ouro.
Só havia dois gêmeos de onze anos escondidos no celeiro, assistindo tudo.
Quando os tiros pararam e os gritos de Catherine viraram silêncio, Éll saiu correndo. Caiu de joelhos ao lado da mãe. O corpo ainda estava quente. Entre os dedos ensanguentados de Catherine, brilhava uma joia vermelha pequena, quase viva. A menina, tremendo, tocou nela. A pedra afundou na palma da sua mão como se tivesse vontade própria. Não doeu. Só ficou quente. Muito quente. Ela não sabia o que era. Achou que era só uma lembrança da mãe.
Eric ficou paralisado, vendo a irmã pegar aquela joia. Ele não sabia ainda que aquilo era um núcleo — que aqueles cristais raros arrancavam a aura de um portador morto e escolhiam um novo corpo. Só soube anos depois.
Os irmãos fugiram com as roupas queimadas e os ouvidos cheios de gritos. Foram encontrados por Los Lobos de Prata, um bando de ladrões que operava nas fronteiras mágicas. Mara, a líder de cabelos grisalhos e cicatriz no pescoço, os acolheu.
Os anos dentro do bando foram duros. Zombavam da “criança de olhos de gato” e da “pirralha de fogo-fátuo”. Alguns tentavam encostar em Éll de formas erradas. Eric sempre se colocava na frente. Levava porrada. Levantava de novo.
Até a noite em que quatro homens bêbados decidiram que era hora de “ensinar” a garota.
Éll, doze anos recém-completos, viu o irmão cair de joelhos cuspindo sangue. Algo estalou dentro dela. A joia que tinha absorvido anos antes despertou de verdade. Chamas explodiram dos seus cabelos, das mãos, do ar. O celeiro tremeu. Os quatro homens gritaram enquanto o fogo os lambia. Não morreram — Mara chegou a tempo —, mas nunca mais olharam para ela sem medo.
Dias depois, foi a vez de Eric.
O bando tinha recebido uma missão suja: assaltar uma caravana de contrabandistas que traficavam ouro. No meio da confusão, dentro de um baú trancado com runas, Eric encontrou uma pedra negra, opaca, como um pedaço de noite sólida. Ele já tinha ouvido as histórias. Sabia exatamente o que era. Era um núcleo, assim como a jóia de sua irmã.
Enquanto os Lobos brigavam por ouro, Eric segurou a joia. Ela afundou na palma dele como se tivesse esperado por ele a vida inteira. As sombras ao redor do garoto se levantaram como cães obedientes. Quando um dos contrabandistas sobreviventes tentou atacar Éll pelas costas, as sombras envolveram o homem. Ossos estalaram. Não sobrou corpo.
Anos depois, os Lobos se desfizeram — traições, emboscadas, o de sempre. Eric e Éll não ficaram para enterrar ninguém. Pegaram seus cavalos (que os escolheram numa noite de tempestade mágica, saindo sozinhos do estábulo para encontrá-los), seus revólveres, seus apelidos… e começaram a escrever sua própria lenda.
Hoje, os irmãos Noah são sinônimo de problemas caros.
Éll entra chutando a porta do saloon, sorri com todos os dentes e solta uma provocação que faz metade do lugar sacar arma.
Eric entra logo atrás, calmo, já calculando ângulos, saídas, quem tem o gatilho mais rápido e quem pode ser comprado.
Ela incendeia o caminho.
Ele apaga testemunhas com sombras que engolem luz e som.
E quando alguém consegue acertar Éll — um tiro de raspão, uma lâmina que corta de leve —, o rosto de Eric muda. O ar fica pesado. Os olhos âmbar viram brasas negras.
E então não é mais negociação.
É vingança.
Camélia e Corvo esperam do lado de fora, imóveis, como sentinelas. Quando os irmãos saem — sujos de pólvora, sangue e fuligem —, os cavalos apenas abaixam a cabeça, como se dissessem: “Vamos embora. A noite ainda é longa.”
Porque no fim, é só isso que resta para os Noah:
um ao outro,
dois cavalos sem rédeas,
e um mundo inteiro que colocou preço na cabeça deles.
Eles não pretendem pagar essa conta tão cedo.
— Ei, Sangue — Éll fala, limpando o revólver na capa enquanto cavalga ao lado dele. — Se um dia eu ferrar tudo de verdade… você me mata antes que eles me peguem?
Eric olha para o horizonte, depois para ela. O sorriso é pequeno, mas verdadeiro.
— Se um dia chegar a esse ponto… eu queimo o mundo inteiro antes de deixar alguém encostar em você. — Ele pausa. — Mas tenta não ferrar tudo de verdade, tá? Eu gosto de dormir de vez em quando.
Éll ri alto, o som ecoando pelo deserto.
— Sem promessas, maninho. Sem promessas.
E os dois seguem cavalgando, fogo e sombra dançando juntos sob o mesmo céu sangrento. Até os dias atuais.
*Voltando ao presente*
A noite, eles se aproximaram do acampamento dos bandidos como fantasmas. Éll moveu-se primeiro, adaga na mão, lâmina imbuída em chamas baixas e azuis — fogo contido, silencioso. Ela cortava gargantas antes que os homens percebessem. Eric seguia pelas sombras, tentáculos negros envolvendo corpos, sufocando gritos antes que saíssem. Um a um, os bandidos caíram sem alarde.
Sobrou o elemental.
Ele acordou de repente, sentindo o vazio ao redor. Placas de ferro rangeram. Saiu da barraca principal, olhos vermelhos acendendo.
— Onde estão meus—
Parou ao ver Éll e Eric parados à sua frente, sujos de fuligem e sangue alheio.
O combate foi brutal e demorado. O elemental atacava com braços transformados em martelos, o chão tremendo a cada golpe. Éll desviava, lançando rajadas de fogo que derretiam partes da armadura. Eric envolvia as juntas com sombras, tentando travar os mecanismos. O golem rugia, ondas de calor elemental queimando o ar.
Demorou o suficiente para que duas silhuetas surgissem no limite do acampamento, montadas em cavalos discretos.
Éll cravou a adaga flamejante no núcleo exposto do elemental. Ele desabou em uma pilha de ferro derretido e vapor.
Uma das silhuetas avançou, voz firme:
— Parem! Não façam isso!
Tarde demais.
A segunda silhueta desmontou e reconheceu os irmãos na hora.
— Sangue e Pólvora… O que diabos vocês estão fazendo aqui?
Eric entrou na barraca sem responder, procurando a caixa ornamentada.
— Cumprindo uma missão — murmurou ele, voz baixa.
O primeiro agente ergueu as mãos.
— Vocês acabaram de eliminar alguém que poderia ter informações sobre A Central.
Éll virou rápido, olhos lilases faiscando.
— O que vocês sabem sobre A Central? E por que estão aqui?
O agente sorriu de lado.
— Vocês são a dupla de irmãos, não é? Já ouvimos falar da intriga de vocês com A Central. Digamos que estamos no mesmo barco.
Os irmãos se entreolharam — uma conversa silenciosa, anos de cumplicidade.
— E o que vocês sabem sobre A Central? — perguntou Éll, voz afiada.
— Não muito. Por isso esse cara era importante — respondeu o primeiro agente.
O segundo começou:
— Na verdade, nós somos agentes à procura de…
Éll avançou num piscar de olhos, adaga erguida para golpeá-lo.
— Fico feliz em encontrar um agente aqui — ironizou ela, voz doce e venenosa.
— Ei, calma! — Ele recuou, esquivando. — Não… não podemos só conversar?
— Pólvora — chamou Eric, firme. — Vamos ouvi-los.
Éll hesitou.
— Mas eles são…
Ela viu os olhos âmbar do irmão escurecerem. As flores secas ao redor murcharam instantaneamente. O ar ficou gélido, pesado.
— Eu também não confio neles — disse Eric, voz baixa. — Só vamos ouvi-los antes.
Um dos agentes pigarreou.
— Bom, eu tenho uma proposta. Já que não confiam na gente, continuem causando problemas pra Central. Nosso objetivo se alinha nisso.
— E o que vocês vão fazer? — perguntou Éll, ainda tensa.
— Continuaremos com o nosso. Com ou sem aliança.
Eric e Éll relaxaram um pouco — o suficiente para baixar as armas.
— Ainda não confiamos em vocês — disse Éll. — Então vamos estabelecer uma relação só pelo objetivo mútuo.
— É um bom acordo — concordou o agente.
Eric deu um passo à frente, olhos voltando ao normal.
— E que fique claro: se entrarem no nosso caminho, serão apagados.
O agente sorriu.
— É bom saber que você pensa assim. Porque eu penso do mesmo jeito.
Eles se encararam por um longo segundo. Depois, os irmãos pegaram a caixa ornamentada e montaram em Camélia e Corvo. Os agentes ficaram para trás, observando as silhuetas desaparecerem na noite.
(Fim por enquanto)”
Art Style: Urban Drama
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